quarta-feira, 23 de setembro de 2009

c l i c h ê


logo eu
que sempre fui forte,
que na vida, nunca duvidei da sorte
choro sozinha
com medo
de te perder
e assim enlouquecer;
logo você
que roubou minha força
sugou-a para si
agora vai
e me deixa aqui
viciada nos teus carinhos
escrava do teu amor.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

p a r t i d a


O cheiro envolve a sala, me desconcentra.Vejo meu pai, absorto e atabalhoado, fazendo nosso almoço. Quer me poupar; sabe que se tem algo que eu odeio nessa vida é cozinhar. Ou talvez apenas queira algo decente para comer. Acho que é um pouco dos dois, tipo "unir o útil ao agradável".Gosto dele. É legal. É meu pai. Vou sentir falta desse sujeito chato e ciumento. Vou sentir falta de tudo. Nem parti. Mas a sensação de adeus fica mais forte a cada dia. Como uma lagarta que se despede da terra, antes de se fechar no casulo. Depois disso, será o céu.Saboreio esse instante. Abaixo a cabeça, o riso vem. Lá de dentro ouço alguém me acompanhar, não estou me saindo muito bem né? Não pai, você está ótimo; só estou pensando num modo de me auto-clonar : vai ser preciso 3 Izabellas pra limpar tudo isso. Ele se vira, vem o sorriso. Já não me importo se vou ficar ou partir. Se vou perdê-lo ou não. Tenho esse sorriso comigo. Apenas esse sorriso. Não é necessário mais nada.

e v o l u t i o n


Sinto- me estranha. Estranha não, diferente.Parece que outra pessoa habita essa massa sedentária e inoperante que é meu corpo. Náuseas. Estou mudada. E isso não é de hoje. Nem tão pouco de ontem. Já faz um tempo que sinto isso. Em um processo lento e cuidadoso minha alma se renova. Sem eu ao menos perceber. Mas não é assim que as coisas funcionam? A natureza segue seu curso, no seu próprio tempo. Tem um método particular para cumprir suas tarefas, e nós, na maioria das vezes, nem percebemos sua ação. Um belo dia você vê as coisas diferentes, o livro tantas vezes relido, a banda fodástica, a idéia defendida com fervor, a calcinha preferida, tudo isso acaba num canto empoeirado dentro de você. Parte de você é perdida, escondida, para que, em seu lugar, uma outra surja, renovada. Melhor. Talvez não melhor, e sim mais adequada com a sua vida no momento. Evolução. Silênciosa, sinuosa. Você só perceberá que ela está acontecendo se der um tempo do mundo e tirar umas férias dentro de você. Então os sinais ficam claros. No momento, o processo metamórfico lhe deixa eufórico. Necessidade mundana de estar em constante transformação. Evolução. No momento, é a satisfação. Mas só se saberá se, de fato, foi positiva a mutação quando outra, tempos depois, ocorrer. Somos terra, somos chão. Um arvoredo nos é arrancado. Uma semente é posta em seu lugar. Que semente será esta? De uma árvore frondosa, que oferece sombra e frutos no outono? Ou então flores, para perfumar a casa na primavera? Só o tempo dirá...

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

i m p a s s e

- Porque és tão inacessível, estrela alva? Não sentes falta dos sentimentos do mundo, para te acalentar, para te proteger?

- Porque cairia todos esses metros para sentir o calor do mundo? Estou bem neste gélido celeste, onde sou radiante e suprema.

- Isto é como um aquário de vidro, serve apenas para te aprisionar. É de solidão que são feitas suas paredes, e essa transparência é para te enganar.

- Estás errado, caro mar. Isto é poder, coisa melhor do que este calor que tens a me oferecer.

-Ora, mas de onde vem tanta arrogância?! Por acaso perdeste a capacidade de amar?

- Claro que não, sou como tu. Porém tenho outra forma de pensar. Sou dona de mim e disso me orgulho. Quando se ama, torna-se prisioneiro. Seus sentidos só percebem o que o amor permite. Além do quê, se não me apego, não sofro com os desgostos que posso ter.

- Mas assim como as alegrias, na vida também se é necessário sofrer. Agindo assim perdes o melhor da festa. Perdes a graça de viver.
Queria ter mais poesia na vida
Queria ter em meu lápis amor, ao invés de solidão
Mas de nada adianta invejar os iluminados
Se eu nasci foi mesmo,
pra viver na escuridão.

sábado, 12 de setembro de 2009

f a c i l i d a d e e m r e l a c i o n a m e n t o s


O celular vibra, toca, chama. Na tentativa inútil de desliga-lo sem me levantar derrubo ele e meu abajur. É, vou ter que levantar. Uma mensagem. Ual, eu recebi uma msg, muito obrigada. Da operadora, cadastrando seu celular pelo n° *104 por 10,90 ao mês, você ganha 100 minutos para falar nos finais de semana, mais 5 msgs por dia, aproveite! É, de quem mais poderia ser. Quem mais me mandaria uma msg às 4 da manhã? A operadora, é claro. E essa promoção. É óbvio que não me cadastrarei. Pra quê? Se eu só recebo msgs da operadora e meu celular só serve pra ouvir músicas?
Traduzindo, ngm me liga.E consequentemente, eu não ligo pra ngm. Suspiro. Isso não é um lamento. É um fato, que está sendo compartilhado. Suspiro. Agora eu não durmo mais, maravilha. Sento na cama, olho ao redor, livros jogados no chão, a cortina bege com alguns detalhes rosa, o computador desligado, o violão encostado na cadeira. Queria tocar um pouco. Ficaria melhor. Pelo menos me desligaria de tudo que me prende a esse corpo, a esse mundo. A música é minha passagem pra fora dessa casca, na qual me mantenho aprisionada. Mas agora são 4 da manhã, e eu acordei com uma msg da operadora. E estou triste. Se fosse outro dia, mandaria eles pro inferno e voltaria dormir. Mas hoje não, hoje não consigo. Minha cabeça está com muitas informações para triturar, não vou relaxar. Porque as pessoas são tão difíceis? Não, está muito clichê, além do quê, não está certa. Porque as pessoas são tão simplórias e eu tão complicada a ponto de não conseguir entende-las, acho que melhorou. A resposta não virá delas. E elas não teem culpa de eu ser como sou. A culpa é só minha. Pra começar, eu era uma pessoa. Não que agora eu não seja uma. Antes eu era uma pessoa normal, com desejos normais e gostos normais. Antes tudo era natural, espontâneo, como tem que ser. Mas eu mudei. Pra melhor, sim. Pra pior, sim. Pior pras pessoas. E talvez pra mim, pois preciso delas. A vida social é necessária a todo e qualquer ser humano globalizado desse sec XXI. Ele querendo ou não. Isso provavelmente irá para a Constitução.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

l i b e r t a s

Tenho medo. Medo de quê? De cair no palco, de errar o passo, de estragar tudo. Bobagem, isso não vai acontecer, você é ótima. Ótima. Ok, é porque não é ela que vai ter que enfrentar uma platéia de mil pessoas ansiosas para verem algum desastre. E eu sou o desastre em pessoa. Relaxa, tudo vai dar certo, tentei me convencer, e como sempre , não funcionou. Não sei porque fui entrar nessa porcaria de aula de ballet. Tenho que parar de ver filmes . 5 minutos meninas, vamos lá, alinhando. Meu deus, meu deus, calma Izabella, calma Izabella, estou hiperventilando. As cortinas se abrem. Aplausos. As teclas do piano começam a vibrar estrépidas, serelepes. Vira, corre, vai , gira... Silêncio. As teclas do piano vão se esgotando, caindo, restando apenas aquele som nostálgico, que anuncia o fim. Aplausos. Não acredito, acabou! Impressionante. É a melhor sensação de todas. Não dançar, não ouvir os aplausos. É a sensação de que você superou a sua própria sentença. É algo como se você estivesse sem ar, no meio de uma neblina, gritando desesperada por socorro. E quando você menos espera , rompe a teia que te cegava, teia que você mesma teceu, e respira ar puro, fresco. E eu podia jurar que, naquela hora,senti uma brisa no meu rosto.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Epitáfio

Primeiro, o impacto. Morreu. Depois, a dúvida . Morreu de quê? Como? Quando? Depois, o luto. Era uma ótima pessoa, não merecia morrer. Depois, a conformação. Está melhor do que nós, com certeza.
Não tem jeito, morte é morte. E é sempre igual.
As pessoas se resguardam, ficam de luto. Vão ao enterro tristes pela morte do ente querido, mas no fundo, a única coisa em que pensam é: Quando será a minha vez?
E quando tudo se acaba, resta apenas a certeza desesperada de que estamos aqui só de passagem.
Acabei de perder minha tia. Foi trabalhar as 7 da manhã e antes das 5 da tarde estará a 7 palmos do chão.
Olhando por essa ótica dá medo. Mas o fato é que a perdi, e a família está de luto. Fui correndo até a casa de minha avó, a procura da minha prima, afim de ver como estava, consolá-la, talvez, se fosse possível. Mas não estava. Minha avó chorava compulsivamente, minhas tias estavam amuadas pelos cantos da casa. Eu não era muito ligada a essa minha tia, que, a essa altura, deve estar sendo enterrada. Não estava abalada. Fui almoçar. Antes de voltar ao trabalho, fui com meu pai até o cemitério, para prestar as ultimas homenagens antes do enterro, já que me recusei de ir. Odeio essas cerimônias de partida. Mas enfim, ao entrar na alcova da falecida, tudo mudou. As cenas de minha tia dançando na reunião de familia, vieram á tona, e com elas várias outras imagens, cenas , situações felizes, em que ela se encontrava. Para mim, ela sempre foi uma coadjuvante. Mas hoje eu percebi que ninguém é coadjuvante na nossa história. Por mais que seja ínfima a participação daquela pessoa na sua vida, no momento em que ela entra, ela é parte dela. Não há coadjuvantes e atores principais. Somos todos iguais, bailando incessantes nessa inusitada e prazerosa peça que chamamos de vida, ora no palco, ora na produção, mas sempre juntos , buscando a felicidade em algum lugar ao sol.

( x - a ) ² + ( y - b ) ² = R²

08:49. Tenho que estudar matemática, tenho prova. Pra falar a verdade , eu nem sei porque estudo essa merda. Vou fazer Psicologia. De que vai me servir saber encontrar a equação de uma reta, ou então a distância entre dois pontos na circunferência? É irônico, chega a ser ridículo. Bom o caso é que tenho que fazer algo e estou adiando, como sempre. Eu tenho essa mania de adiar as coisas. Sempre preciso de mais 10 minutos. 10 minutos pra quê? Eu nunca estou fazendo nada! Nesse caso, adiar as coisas se tornou um vício, parte de mim. Primeiro se começa adiando as tarefas, depois os compromissos, depois, quando se vê, você adiou a vida, e não tem nada. É velha, tem rugas, está só. Agora já é tarde de mais. A maioria das pessoas só percebem a estupidez que fizeram quando já não há mais conserto, quando não depende mais delas para que tudo se ajeite. Espero que não chegue nesse estado deprimente, mas receio que tenha um pé dentro dessa barca. E quanto mais penso no assunto, mais as coisas vão piorando, ficando turvas, tudo turvo, só vultos. E tudo se esvái, como pó. Sobra só o sentimento. A angústia, a vontade louca de sumir,sair, romper, gritar. Dessespero.Mas desespero de quê? De ser feliz. Talvez.
Equações na circunferência, lá vou eu! 09:00